/Por Flávia G. Pinho

O espaço que as mulheres vêm ocupando no universo do vinho cresce de forma contínua – e faz tempo. A francesa Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin foi uma das pioneiras. Viúva aos 27 anos, em 1805, ela assumiu as rédeas da vinícola familiar e a transformou em uma das marcas mais importantes do mundo.

Apesar de ter sido a mais famosa, não foi a primeira: muitas outras vieram antes dela, como atestou Tilar J. Mazzeo em A Viúva Clicquot – A História de um Império do Champanhe e da Mulher que o Construiu (Ed. Rocco). Pouco se fala, no entanto, da relação que essas mulheres desbravadoras têm ou tiveram com um importante aspecto do trabalho feminino: a maternidade. Barbe-Nicole, por exemplo, só conseguiu dar conta da agenda de empresária porque enviou a filha única, Clémentine, de apenas 7 anos, para um colégio interno.

“Como tantas mães sozinhas, ela já devia conhecer os sofridos desafios de criar uma filha e ao mesmo tempo dirigir uma empresa”, comenta a autora. O tempo passou, enviar filhos a internatos deixou de ser uma decisão trivial, mas a questão é mais contemporânea do que nunca.

Assim como aumenta sem parar o time de mulheres no mundo do vinho, cresce a parcela de vitivinicultoras, sommelières, enólogas, importadoras e lojistas que também viram equilibristas no momento em que se tornam mães. Para comemorar o mês das mães, a Sociedade da Mesa conversou com três delas.

Oriundas de diferentes culturas, elas comandam vinícolas conceituadas em seus respectivos países e não se limitam à rotina de escritório: arregaçam as mangas diariamente na lida, dividem-se entre vinhedos, adegas, feiras, degustações e rodadas de negócios e, não bastasse, orgulham-se de ser mães muito presentes. Duas delas, inclusive, já têm as filhas ocupando importantes funções. 

Hortência Ayub, proprietária da vinícola Campo de Cima, Brasil

Difícil dissociar a Campanha, na região fronteiriça entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, da figura dos gaúchos machões com suas bombachas. Pois foi nesse cenário tão masculino que a carioca Hortência Ayub ergueu sua vinícola juntamente com o marido, o médico aposentado José Silva Ayub, no comecinho dos anos 2000.

Hoje, quem chega de carro à pequena Itaqui não resiste a uma parada na charmosa Campos de Cima, que vem se destacando no enoturismo – dos jardins que recepcionam o visitante à bonita sala de degustações, cada detalhe transpira feminilidade e tem o dedo de Hortência ou de suas filhas.

Uma casinha ao lado da vinícola foi transformada em wine house e hospeda quem quiser fazer uma imersão. Manuela, arquiteta, assinou o projeto da vinícola e cuida de todos os assuntos relacionados à edificação e à imagem de Campos de Cima, enquanto Vanessa, advogada, é responsável pelo departamento jurídico.

Ambas têm os próprios filhos e outros clientes para atender e contam com a compreensão da mãe para organizar suas agendas. “O mundo do vinho requer muito envolvimento pessoal. Não temos hora para nada, mas sei que elas possuem suas demandas pessoais também. Nesse momento, ser mãe fala mais alto do que ser empresária”, afirma Hortência, que diz tirar importantes lições dessa relação na hora de lidar com o restante da equipe.

“A maternidade me completa e faz com que eu enxergue melhor as pessoas a minha volta. Tenho mais facilidade para me colocar no lugar dos funcionários.” 

Dorina Lindemann, proprietária da Quinta da Plansel, Portugal

Aos 55 anos, Dorina (foto acima) não é uma matriarca alentejana como as outras. Em uma das regiões mais conservadoras de Portugal, a enóloga adora tirar fotos divertidas na companhia das filhas, Júlia e Luísa. Em uma delas, as três aparecem dentro de barris, levantando os minivestidos.

Nascida e criada na Alemanha, ela assumiu os vinhedos do pai, Jorge Böhm, e lançou o primeiro rótulo em 1997. Desde então, gerencia a propriedade em Montemor-o-Novo e imprime seu jeito feminino nos vinhos. “Aqui em Portugal, os homens preferem a touriga franca e nós, a touriga nacional, que tem aromas florais e de cereja”, exemplifica.

A feminilidade não aparece apenas nos vinhos – que chegam ao Brasil pela Decanter. Está também na forma de gerenciar a vinícola. “Os mais velhotes ainda não nos aceitam 100%”, reconhece Júlia, braço direito da mãe.

Dorina combate o preconceito com um jeitinho feminino, maternal até, de dar ordens que mais pareçam pedidos. “Nada mais é como antes, quando o homem mandava e todo mundo obedecia. As mulheres são mais delicadas no trato. Tomo uma cervejinha com os funcionários, quero saber do que gostam. Eles precisam sentir a amizade do patrão, querem ser valorizados. A mulher sabe pedir em vez de mandar.”

Ludivine Griveau, enóloga do Hospices de Beaune, França

Ela é mãe de três: Marilou, 16 anos; Pierre, 14; e Julia, 12. Quando soube da vaga de enóloga no Hospices de Beaune – instituição de caridade da Borgonha, fundada na Idade Média, que alcançou prestígio na produção de vinhos –, não pensou duas vezes: inscreveu-se e enfrentou cinco meses de processo seletivo.

Derrotou 79 candidatos homens e chegou ao posto em 2015, quando o trio ainda estava longe da adolescência. “Felizmente a França recebe bem as mulheres e as mães no mundo do vinho. Estamos perto de chegar ao ponto em que as habilidades virão antes do fato de ser homem ou mulher.”

Nem tudo são flores. Após o primeiro ano, no qual se limitou a observar e aprender, Ludivine começou a arrumar a casa e implementar mudanças. O desafio inicial foi fazer com que os trabalhadores dos vinhedos e da cantina adotassem procedimentos padronizados, já que cada um agia como achava certo – mas nem todos aceitaram as novidades, especialmente os homens mais velhos.

A enóloga enfrentou antipatia, alguns boicotes, mas conseguiu convencê-los. No primeiro leilão de sua produção, o vinho bateu recorde de preço. Mesma flexibilidade e jogo de cintura são exigidas dela dentro de casa.

Filhos autônomos desde pequeninos, uma divisão justa de tarefas com o pai dos três e uma boa dose de organização permitem que ambos trabalhem muito e, ao mesmo tempo, mantenham a prole como prioridade. “A família é tudo para mim. Ainda bem que não preciso de muitas horas de sono!”