/Por Daniel Salles

Quer saber onde vão surgir novas vinícolas no Brasil? Pergunte a Vanja Hertcert, arquiteta gaúcha que se especializou em projetá-las. Radicada em Bento Gonçalves, no Vale dos Vinhedos, ela já prestou serviços para quase 30 marcas de vinho. Faz de pequenas reformas a construções do zero.

Atualmente, está imersa em 24 projetos, 12 deles de vinícolas que ainda não existem. A maioria fica em regiões sem nenhuma tradição vitivinícola, como Tiradentes, em Minas Gerais, e Avaré, em São Paulo. “Há uma revolução silenciosa em curso”, diz a arquiteta, que não dá detalhes de projetos em andamento.

“Nos próximos anos, o vinho brasileiro será conhecido por inúmeros novos terroirs.” Dos projetos já concluídos, o mais recente está localizado no município de Mucugê, na Bahia, a 450 quilômetros de Salvador. É a vinícola Uvva, lançada em março. Adepta do método de inversão do ciclo da videira, ela dispõe de 52 hectares de vinhedos a 1.215 metros, em média, do nível do mar.

Discreta, a sede – de quatro andares, um deles debaixo da terra – começou a sair do papel em 2018. “Trabalhei oito anos nesse projeto e desenhei até os vinhedos”, diz Vanja. “Não se monta uma vinícola com pressa.” Para manter o mistério até a inauguração, os proprietários da Uvva impuseram um contrato de confidencialidade à arquiteta.

A revolução em pessoa

Nascida há 61 anos em Três de Maio, no norte do Rio Grande do Sul, ela se formou em arquitetura na Universidade Luterana do Brasil, no mesmo estado. Enveredou pelo mundo dos vinhos depois de projetar um complexo turístico na Serra Gaúcha, que não saiu do papel, para a Maison Forestier.

A segunda incursão nesse meio lhe abre portas até hoje: a arrojada sede da Luiz Argenta, em Flores da Cunha (RS). “Esse projeto ajudou a quebrar um paradigma na região”, diz a arquiteta. “Se o vinho da Serra Gaúcha quer provar que não é mais o mesmo da época dos colonos, não pode insistir em uma arquitetura daquele tempo.”

Ela explica que, ao projetar uma nova vinícola, seu principal objetivo é garantir a funcionalidade. “Os projetos precisam encher os olhos dos visitantes, mas devem, antes de tudo, facilitar a produção dos vinhos”, observa, acrescentando que empreendimentos do tipo demandam pouca luminosidade em algumas áreas e materiais que mantenham as temperaturas mais baixas, entre outras especificidades.

“É preciso atentar até para a quantidade de garrafas que deverão ser produzidas a cada ano”, informa. “Do contrário, pode faltar espaço para elas.” Acrescenta que sua missão é ajudar os sonhos dos clientes a virarem realidade. “Só me nego a fazer castelo medieval”, ironiza.

O portfólio dela espelha a evolução e a sofisticação do vinho brasileiro. Inclui, por exemplo, as vinícolas gaúchas Don Laurindo, Cave do Sol e Lovara. A ampliação da Larentis, em Bento Gonçalves, quase vizinha ao escritório dela – que reúne seis profissionais –, também leva sua assinatura.

“O projeto valorizou muito o vinhedo e trouxe soluções para o dia a dia, a exemplo da ilha para degustações”, elogia o enólogo André Larentis, mandachuva da vinícola da família. “E ainda previu espaço para ampliações.”

Para a incensada Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo, Vanja idealizou uma construção inteiramente nova destinada à produção e ao receptivo – as obras ainda não começaram. Pizzato, Aurora, Lídio Carraro, Valduga e Chandon do Brasil também fazem parte da lista de clientes.

Para a Miolo, também de Bento Gonçalves, projetou o despojado wine garden. “Ver jovens deitados no gramado tomando vinho é o máximo, pois minha geração não admitia isso”, observa.

Quem compra um vinho, defende ela, tem o direito de tomá-lo do jeito que quiser. “Regras xaropes, como a que diz que cada variedade tem sua taça correta, só afastam os consumidores”, acrescenta.

De gole em gole

A ironia é que ela não bebia vinhos até começar a trabalhar para o setor. Hoje apaixonada por eles, brinca que seu signo ascendente é chardonnay e que “tem a Lua em merlot”. “Participo mais de feiras de vinho do que de arquitetura, pois preciso estar inteirada sobre as novidades de interesse dos clientes”, confidencia.

Depois diz que aboliu o cafezinho no próprio escritório para substituí-lo por uma eventual taça de espumante no meio da tarde. É o tipo de vinho de que mais gosta, além dos brancos em geral. Tintos, ela bebe só os mais leves, não tão tânicos.

Quando viaja de férias, claro, uma visita a uma vinícola precisa constar no roteiro – nas próximas, vai com o marido para a região de Salta, no norte da Argentina, conhecida pelo cultivo de uvas torrontés. Perguntada sobre as vinícolas que mais gostou de conhecer pela arquitetura, cita a chilena Lapostolle, a espanhola Antinori e duas do Uruguai, a Sacromonte e a Bodega Garzón. “A arquitetura motiva os entusiastas do vinho a embarcar para qualquer lugar do planeta.”