/Por Sergio Crusco

Ela é pequenina e tem casca grossa, rica em taninos. Seus cachos são atarracados e compactos. Mas não leve os predicados diminutos ao pé da letra. “A albariño tem capacidade aromática inigualável”, diz o enólogo Javier Aladro, das Bodegas Vionta, na Espanha.

Pode gerar vinhos leves e frescos, com aromas florais e de frutas tropicais e uma acidez vibrante e encantadora. Quando fermentada em carvalho ou após algum tempo de descanso sobre as borras, nascem bebidas mais sedosas e complexas, em que brotam aromas de frutas confitadas de polpa branca.

Também se presta à vinificação de vinhos doces de colheita tardia ou a irrepreensíveis espumantes. “A alvarinho é uma uva muito elástica”, pontua Luis Cerdeira, enólogo da vinícola portuguesa Soalheiro. Queira chamá-la de albariño ou alvarinho, Aladro e Cerdeira estão no lugar certo.

O primeiro em Rías Baixas, no sul da Galícia; o segundo no pedaço de Monção e Melgaço, no norte da região dos vinhos verdes, terroir onde a casta branca encontra sua melhor expressão, em solos em que predominam granito e argila. Há controvérsias sobre a origem da uva, se portuguesa ou espanhola. Cada país puxa a sardinha para sua brasa, mas a quem é aficionado sobram bons motivos para provar produtos dos dois lados da fronteira. 

Dissecando desde a semente

De maneira geral, albariños espanhóis tendem a ter mais corpo, enquanto alvarinhos portugueses prezam pela leveza e pelo frescor. Essa, porém, não é regra: há exemplares de diversos estilos nos dois países. Javier Aladro trabalha com uvas colhidas em diferentes estágios de maturação, obtendo vinhos mais leves com frutas mais verdes e vinhos encorpados com frutas maduras – caso do Vionta Albariño, que passa por um estágio de descanso sobre as borras das leveduras.

A Soalheiro, grande laboratório de experiências com a cepa, produz alvarinhos com citricidade, juventude e alguma sapidez (influência dos ventos do Atlântico), como o Soalheiro Alvarinho Clássico, ou irmãos bem robustos, como o Soalheiro Reserva, que estagia em carvalho e chega à mesa com mais estrutura.

Em Portugal ela ainda brilha em uma série de cortes, sobretudo com as uvas loureiro e trajadura, comuns na região dos vinhos verdes, responsável por 75% da produção de alvarinho no país. Para quem tem paciência e gosta de analisar o desenvolvimento dos vinhos em garrafa, alvarinhos e albariños aguentam algum tempo de guarda.

“Após cinco anos, um bom exemplar ainda mantém a fruta fresca e a acidez características dos alvarinhos. Depois disso, surgem notas de frutas secas e mel. Ao aproximar-se dos dez anos, vem o aroma petrolado parecido ao dos rieslings alemães”, diz Cerdeira.

Aos fãs da boa mesa

A uva rende vinhos que combinam com tudo o que é do mar e, por sua acidez, com comidas amanteigadas como risotos, queijos frescos, molhos brancos à base de ervas ou a delicadeza de sushis e sashimis.

Se do lado espanhol temos a harmonização campeã com paella, do lado português não podemos esquecer o casamento com o bacalhau bem azeitado ou preparado com natas, quando a mesma acidez faz o corte perfeito com a untuosidade desses pratos.

A versatilidade dessa pequena notável fez com que se tornasse uma cepa da moda entre bocas mais exigentes, cansadas da massificação de uvas brancas como chardonnay e sauvignon blanc mundo afora. Estados Unidos, Japão e Inglaterra são os maiores fregueses da albariño de Rías Baixas, que em 2021 vendeu 36 milhões de garrafas.

Mas não espere um boom: “Estamos em uma região onde não há muita possibilidade de crescimento, pois de um lado temos o mar e do outro, a montanha”, diz Aladro.

Conquista dos trópicos

Na América do Sul, o Uruguai deu um passo à frente e cimentou a fama de seus albariños muito equilibrados, como os das vinícolas Bouza e Garzón, que investiram pesado no marketing que promoveu a boa adaptação da casta no Cone Sul.

No Brasil, a história da alvarinho não é tão recente e ela está bem aclimatada no extremo sul do Brasil, região da Campanha Gaúcha e arredores. Ali perto, na Serra do Sudeste, a cepa foi descoberta em 2009 numa propriedade comprada pelo empresário Adolar Hermann de um casal que cultivava mudas.

O enólogo Anselmo Mendes, espécie de rei do alvarinho na região de Monção e Melgaço, contratado para dar consultoria ao projeto da Vinícola Hermann, identificou cerca de 0,3 hectare de videiras da alvarinho e recomendou que se investisse nela.

O Alvarinho Matiz foi lançado em 2012, já arrebatando prêmios, e surpreende ano a ano com seus aromas de frutas brancas bem tabeladas com a acidez da casta.

“Eu diria que fazemos um alvarinho no meio do caminho entre os estilos português e espanhol, com muito frescor e notas florais, mas com presença de frutas mais maduras”, diz Maike Rosa, enólogo da Hermann, que amadurece o vinho durante seis meses em carvalho. “É uma uva que permite muitas interpretações enológicas, e pretendemos investir nela, plantando mais vinhas e fazendo novas experiências.”

vinho
Portugal
Região: Minho
750 ml / BRANCO
Vinho Branco Maria Saudade D.o.c Vinho Verde
R$ 81,18
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