/Por Cristina Bielecki

O médico cardiologista e vinhateiro Rubem Ernesto Kunz produz vinhos de fermentação natural há oito anos na região de Taquera, no Rio Grande do Sul.

Quem o apresentou ao mundo da enologia foram os avós, com quem ele passava as férias na infância. O avô paterno era perfumista, o que lhe garantiu um nariz superapurado – ao beber os fermentados de uvas americanas, conseguia descrever os aromas com enorme riqueza de detalhes.

Durante a faculdade, morou com um tio que tinha o hábito do vinho à mesa. Além de buscarem juntos novas garrafas diretamente na Serra Gaúcha, também aprenderam (e beberam) muito sobre rótulos portugueses, italianos e franceses.

Em 2015, Kunz criou a própria vinícola no quintal de casa, a Vinhos da Rua do Urtigão. A esposa, Valéria Kunz, é responsável pela confecção dos rótulos, com pinturas e ilustrações criativas e ousadas. Hoje seus vinhos são reconhecidos pela qualidade e pelos cuidados na vinificação. 

Sua vinícola tem um nome curioso: lembra planta e personagem de história em quadrinhos. Por que o nome Vinhos da Rua do Urtigão? 

Sempre gostei do modo como os portugueses e franceses batizam seus vinhos com o nome do local. O título surgiu quando meu amigo Alfredo, ao me ceder espaço na sua indústria de suco de uva, me perguntou que nome eu daria. E a propriedade do meu amigo fica na Rua do Urtigão. Em 2014, ele e a esposa começaram um projeto de criação de cordeiros e uma indústria de suco de uva e implantaram um parreiral de uva americana – a bordô, própria para produção de suco. Fui lá acompanhar o processo e aquilo começou a mexer na minha cabeça. 

Atiçou a vontade de fazer vinho? 

Terminamos o processo e fomos almoçar juntos na propriedade. Depois do almoço, eu disse: “Tu está com a uva aqui, tu tem uma desengaçadeira. Vamos arrumar um canto aqui na indústria de suco de uva, vamos botar umas pipas, ver como é que é essa história de fazer um vinho, fermentar uma uva”. Combinamos então que na próxima safra, em 2015, eu iria fermentar as primeiras uvas. 

Como foi essa primeira vinificação? 

Tinha-se uma ideia a respeito de vinificação. Mas, na prática, é diferente. Esse primeiro vinho foi com a safra 2014/2015, com a uva bordô, que vinifiquei em branco. Toda a turma da confraria aqui de Taquara foi me ajudar. A gente marcou num sábado, às 7 horas da manhã, no parreiral.

Colhemos 400 quilos de uva e colocamos para fermentar. Essa primeira vinificação fiz de forma tradicional: queria conseguir um vinho jovem, leve, frutado… Fiz tudo direitinho, como o manual manda, e ela se transformou em um belo vinho. Foi muito entusiasmante, pois era como fazer um voo cego. 

Como chegou ao método natural de vinificação? 

De 2016 para 2017, saiu uma matéria sobre o Eduardo Zenker fazendo vinho na garagem dele, lá em Garibaldi. E vi que ele usa as mesmas coisas que uso, as mesmas pipas. Pensei que tinha de conversar com o Eduardo. E fui. Muito simpático, receptivo, generoso nas coisas que me disse.

Aliás, nestes oito anos que vinifico, tem duas coisas que conheci neste mundo de vinhateiros e viticultores: a generosidade e a divisão de conhecimento. Eduardo Zenker comentou sobre a Lizete Vicari, com quem também conversei. Os dois vinhateiros seguem o método natural e me apaixonei por essa técnica.

Ela tem a expressão do terroir, que traz do local onde a uva está plantada as características do solo, do clima e da cepa, não tem levedura inoculada, não tem aromas que a levedura inoculada proporciona. Hoje, todos os vinhos da Rua do Urtigão são vinificados pelo método natural, sem intervenções químicas, fermentados espontaneamente por leveduras nativas. Não são filtrados e estabilizam naturalmente pelo frio do inverno. 

Quando conseguiu montar a própria vinícola? 

Em 2020, pouco antes de começar a pandemia. Eu estava há muito tempo namorando um terreno que fica nos fundos da minha casa. O acesso é por outra rua, uma área recém-aberta e bem precária. Na safra de 2021, já consegui receber as uvas na minha vinícola própria. Foi uma coisa fantástica, emocionante, porque assim fechou o ciclo do sonho: fazer um vinho e ter um local próprio para isso. 

Tem planos para aumentar a produção?

Não tenho meta em números para a minha pequena vinícola. Ela existe para me dar o prazer de vinificar. O que eu quero é continuar criando, sem preocupação com vendas. A comercialização até agora aconteceu porque as pessoas gostaram dos vinhos e me procuraram. Essa divulgação tem sido feita espontaneamente, por pessoas que provaram e que passam a falar bem dos vinhos. 

Os rótulos de seus vinhos são criativos e ousados — de onde vem essa inspiração? 

Rótulos são uma coisa que eu valorizo bastante, que são fotos que faço e partes de quadros que a Valéria, minha esposa, pinta. E no rótulo sempre diz qual é o vinhedo de onde veio a uva. Por exemplo, o vinho Aos Pés de Sophia é um branco elaborado com a uva manzoni bianco, plantada no vinhedo São Paulino, de Vacaria. O rótulo é uma homenagem às mulheres sábias e sedutoras, que nos têm a seus pés. A foto é minha. Os pés, da Valéria. Minha Sophia. 

Como é a rotina de um médico vinhateiro? 

Minha formação é de médico especializado em cardiologia e ecocardiografia. Trabalho na minha clínica diariamente pela manhã e à tarde. Neste período de safra, preciso trabalhar no vinho pela manhã bem cedo e ao anoitecer. Tiro duas tardes por semana para trabalhos na vinícola. Como médico, posso dizer que existem inúmeros estudos, principalmente na cardiologia, demonstrando que o uso moderado do vinho – até três taças ou meia garrafa – é saudável.