/Por Flávia G. Pinho

Dos 325 milhões de quilos de uvas que os produtores brasileiros destinaram à elaboração de vinhos em 2021, 225 milhões viraram vinhos de mesa. O dado do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ajuda a explicar a imagem que boa parte dos brasileiros ainda guarda dos rótulos nacionais.

Mas basta passar os olhos por algumas das cartas de vinhos mais cintilantes do país para notar que essa ideia é coisa do passado. No Rosewood São Paulo, primeiro hotel seis-estrelas do Brasil, a carta elaborada pelos sommeliers Adiu Bastos, Danielle Forte, Marcela Celeguim e Marcelo Fonseca abre com uma seleção de espumantes – dos 15 listados, nove são made in Brazil, com preços que chegam a 1.050 reais.

O time também reservou espaço nobre para brancos, laranjas, rosés e tintos, seguindo a valorização dos produtos brasileiros definida pelo francês Alexandre Allard, idealizador do projeto Cidade Matarazzo, que abriga o hotel. Essa é também a missão que a sommelière Daniely Maiara tomou para si ao assumir a adega do Six Senses Botanique Hotel & Spa, de Campos do Jordão (SP).

A carta, ela herdou da antiga gestão – o empreendimento foi assumido pela rede hoteleira internacional em 2021. A pedido de alguns hóspedes, Daniely acrescentou rótulos estrangeiros, mas continuam lá garrafas da Guaspari, do Espírito Santo do Pinhal (SP), da Villa Santa Maria, de São Bento do Sapucaí (SP), e da Luiz Porto, de Cordislândia (MG). “Luto contra o preconceito todos os dias. O público anda mais aberto; é um bom momento para isso”, acredita. 

Sem espírito de vira-lata

Vinhos nacionais vêm faturando prêmios importantes, conquistando a atenção do consumidor e garantindo a presença em adegas Brasil afora, onde já atingem cifras de três ou quatro dígitos. Mas nunca se viram tantos rótulos locais dividindo espaços antes reservados a regiões e vinicultores consagrados.

“Tem cliente que recusa o vinho só por ser nacional. Por isso, precisamos conduzi-lo, principalmente quando saímos do domínio dos espumantes. Mas quem se propõe a experimentar se surpreende”, diz Marcela Celeguim.

Joalheiro celebrado entre a alta sociedade paulistana, Jack Vartanian era um desses bebedores de vinho que torciam o nariz para os rótulos nacionais antes mesmo de prová-los. Até que, numa viagem pelo Rio Grande do Sul, em 2014, viu-se dentro de uma loja de vinhos em Gramado. Seguindo recomendações da lojista, saiu de lá com 12 garrafas, entre elas um pinot noir da vinícola-butique Lidio Carraro.

Depois da experiência, Vartanian trocou os vinhos importados que servia nos lançamentos de coleções de joias pelos brasileiros. A curiosidade da clientela era tamanha que, em 2018, ele instalou uma adega dentro da flagship da marca, no Jardim Paulista.

“Comecei a vender vinhos de alguns produtores, fazia degustações às cegas de brincadeira, inclusive com sommeliers, e ninguém acreditava”, conta. Em novembro de 2020, o joalheiro assumiu a vocação de curador e lançou a Jack Vartanian Adega, projeto 100% on-line que faz entregas em todo o Brasil.

Para ele, o preconceito do passado até tinha razão de ser. “Os produtores brasileiros não conheciam o terroir, tentavam copiar vinhos de outros países e maquiavam os problemas com excesso de madeira. Esse foi o grande erro de nossa vitivinicultura.

Hoje, vejo muitos vinhos nacionais desbancando os importados. A syrah vai muito bem em São Paulo e Minas Gerais; há castas brancas de grande potencial em Santa Catarina; e nossa tannat vai desbancar o Uruguai em alguns anos”, aposta.

Modelo de exportação

Trabalhar com bons vinhos nacionais ainda exige disposição dos sommeliers, além de sola de sapato. Só assim, diz Bastos, é possível encontrar os pequenos lotes preciosos que ele arremata com exclusividade para o hotel. Em uma de suas últimas viagens, descobriu a família produtora dos vinhos Larentis, no Vale dos Vinhedos.

“Muitos terroirs ainda estão nascendo. Está acontecendo diante de nossos olhos, e participar desse momento é um privilégio”, poetiza. De olho nesse mercado, a vinícola Campestre, de Vacaria (RS), acaba de inaugurar um showroom com wine bar em Pinheiros.

Foram 600 mil reais de investimento para colocar de pé o espaço, onde o cliente pode degustar qualquer um dos rótulos em taça. Para acompanhar vinhos como o Zanotto Sangiovese 2020, medalha de ouro no Decanter World Wine Awards 2021, há tábuas de queijos, charcutaria e outros antepastos. Conhecida pelos vinhos de mesa, que chegam a 40 milhões de litros por ano, a empresa pretende agora se firmar no nicho dos vinhos finos. 

vinho
Brasil
Região: Serra Gaucha
2020 / 750 ml / ROSE
Vinho Rose Fausto Merlot 2020
R$ 81,18
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vinho
Brasil
Região: Serra do Sudeste
2019 / 750 ml / BRANCO
Vinho Branco Lidio Carraro Faces do Brasil Chardonnay 2019
R$ 109,00
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vinho
Brasil
Região: Serra do Sudeste
750 ml / ESPUMANTE
Lidio Carraro Faces do Brasil Brut Rose
R$ 81,18
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vinho
Brasil
Região: Campanha Gaúcha
2014 / 500 ml / TINTO
Vinho Tinto Pueblo Pampeiro Indomito Tannat Licoroso 2014
R$ 151,76
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vinho
Brasil
Região: Serra do Sudeste
2018 / 750 ml / TINTO
Vinho Tinto Lidio Carraro Dadivas Pinot Noir 2018
R$ 109,00
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vinho
Brasil
Região: Serra da Gaucha
750 ml / ESPUMANTE
Espumante Garibaldi Prosecco Ice Demi-sec
R$ 55,29
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vinho
Brasil
Região: Serra do Sudeste
750 ml / ESPUMANTE
Lidio Carraro Faces do Brasil Brut
R$ 92,94
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vinho
Brasil
Região: Serra Gaucha
750 ml / ESPUMANTE
Espumante Garibaldi Pinot Noir Brut Rose
R$ 55,29
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