/Por Cristina Bielecki

Diretora do Instituto Georges Chappaz de la Vigne et du Vin en Champagne e membro da Comissão do Vinho, Nutrição e Saúde da Union des Enologues, Rachel Ouvinha de Oliveira é responsável por programas de pesquisa e formações ligadas ao vinho e jurada de concursos internacionais.

Brasileiríssima, Rachel se apaixonou por Champagne e pelo champanhe. Após concluir o doutorado, foi para a França se aperfeiçoar em enologia. Hoje, está à frente do instituto que oferece formação na área, além de enoturismo e especialização de jornalismo em enologia.

Recentemente, ela veio ao Brasil a convite da Wine Trade Fair para uma série de palestras e recebeu a Sociedade da Mesa para uma entrevista exclusiva. Neste bate-papo, conta sobre o trabalho dela na mais famosa AOC (Appellation d’Origine Controlée) e, em especial, sobre como as mudanças climáticas estão afetando Champagne e a produção da bebida.

Conte um pouco de sua trajetória daqui do Brasil para a França.

Tenho formação em química pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e mestrado em química ambiental, também na UERJ. Depois, fiz um doutorado entre a UERJ e a Universidade de Paris. Desde que me mudei para a França, na época do doutorado, sempre estive presente em degustações de vinhos.

Era minha paixão viajar e conhecer os vinhateiros e os vinhedos de vários países por onde passava. Então me perguntei por que não fazer disso minha profissão. Assim, resolvi tirar o diploma nacional de enologia em Champagne e estou lá desde então. 

Qual é a ligação entre química e vinho?

 Eu trabalhava com nanopartículas para limpeza de águas hospitalares. Fui para a França lidar também com nanopartículas, mas para câncer – uma área completamente diferente. Hoje uso muito minha experiência em química, bioquímica e microbiologia, que estudei tanto no mestrado quanto no doutorado para tudo o que é conhecimento de fermentação. 

E como chegou a Champagne? 

Depois de experiências em pesquisa e desenvolvimento numa casa de Champagne, no grupo Pommery, vim para o Institut Georges Chappaz – que é uma célula de formação sobre vinhos em Champagne. Eu tinha uma experiência também, em parceria com a PUC, por exemplo, no Rio de Janeiro, em projetos de educação a distância.

Fui professora no Brasil antes de ter essa formação em enologia. Hoje consigo conciliar minha paixão por vinhos e também minha experiência nas áreas de educação, pesquisa e desenvolvimento. 

Como é seu trabalho no Institut Georges Chappaz? 

Meu trabalho é montar estratégias para que o instituto cresça e tenha a infraestrutura necessária para receber alunos do mundo inteiro e para que nossas formações sejam reconhecidas mundialmente. É importante ressaltar que o Institut Georges Chappaz é uma célula da Universidade de Reims, então nós fazemos parte da Universidade de Reims Champagne-Ardenne na parte de vinhos e vinhas, de viticultura e enologia. 

Como são desenvolvidos esses projetos? 

Temos as estratégias de projetos e pesquisa. Nosso papel é fazer o link entre pessoas interessadas e pessoas que podem trabalhar em um projeto sobre vinhos ou vinhedos. Se uma empresa tem um problema ou algo que queira estudar mais a fundo, faz contato conosco para que a gente avalie quem pode trabalhar nesse projeto entre todos os laboratórios da universidade. Nosso painel de pesquisa é grande e o leque é bastante aberto, então temos muitas possibilidades para tudo o que é pesquisa e desenvolvimento. 

Em relação às mudanças climáticas, como a região de Champagne está sendo afetada? 

A temperatura média global aumentou 0,8 °C desde a era pré-industrial. Em Champagne, as consequências já são perceptíveis. Por enquanto, os efeitos não são alarmantes. Para ter uma ideia: em 30 anos, a vindima adiantou em 18 dias; o índice de frescor noturno foi de 9,8 °C para 10,4 °C; menos 1,3 grama de acidez total e mais 0,7% de potencial alcoólico. 

Quais riscos a produção de Champagne está correndo? 

Champagne agora está estudando meios que permitam preservar a tipicidade de seus vinhos para hipóteses menos otimistas de deriva climática. Uma diminuição do rendimento da colheita e da qualidade das uvas é um risco que deverá ser evitado. 

Quais são as medidas que a região está adotando? 

Consciente do desafio climático, Champagne tem se mobilizado desde 2003, sendo o primeiro setor vitivinícola do mundo a estabelecer a pegada de carbono e a identificar as fontes de emissão mais significativas.

O plano estratégico se baseia em cinco pontos: promover a mobilização do processo vitivinícola sustentável; propor soluções de transporte; aumentar a eficiência energética dos imóveis; favorecer mercadorias e serviços com baixa pegada ecológica; e mobilizar todo o setor vitivinícola no cálculo da emissão de carbono.

Em relação aos vinhedos, novas castas podem ser adaptadas e aceitas na região? 

O vinhedo de Champagne está se preparando para as inevitáveis mudanças climáticas. A estratégia inclui um programa de criação varietal que combina técnicas clássicas de hibridização e ferramentas inovadoras. Cruzando as castas autorizadas em Champagne com castas naturalmente resistentes a determinadas doenças ou que apresentem particularidades interessantes, como a maturação tardia, por exemplo, pode-se ter uma resistência natural ou uma aptidão cultural mais adaptada às condições climáticas.

As novas variedades são obtidas e avaliadas segundo a fenologia, comportamento agronômico, componentes de rendimento e qualidade do vinho. Graças a esse estudo, quatro variedades foram inscritas no catálogo francês de variedades de vinhas: voltis, floreal, artaban e vidoc. 

No futuro, esse cenário irá alterar o champanhe como conhecemos? 

A meu ver, a Champagne não deve evoluir constantemente, mas adaptar-se às adversidades e ao gosto do consumidor. Foi o que aconteceu após a crise da filoxera e da Primeira Guerra Mundial e com a evolução da dosagem, por exemplo. Os champanhes do fim do século 18 eram levemente dosados. A dosagem aumentou acentuadamente por volta de 1830 e depois diminuiu no fim do século para se adaptar à clientela britânica.

Nossa geração conhece esse fato através da história. Hoje, beber um champanhe dosado em 150 g/L (três vezes mais açúcar do que a Coca-Cola) pode parecer loucura, mas era normal naquela época. Uma coisa é certa: Champagne será lembrada pela capacidade de inovar e de se adaptar, sempre garantindo a qualidade excepcional dessa bebida.

Vinhos da região Champagne – França:

vinho
Região:
un / TACA
Taças Champagne 2 Taças
R$ 103,53
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vinho
França
Região: Champagne
750 ml / ESPUMANTE
Champagne Jm. Gobillard & Fils Rose Brut
R$ 704,71
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vinho
França
Região: Champagne
750 ml / Espumante
Champagne Jm. Gobillard & Fils Brut Grande Reserve Premier Cru
R$ 704,71
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vinho
França
Região: Champagne
750 ml / ESPUMANTE
Champagne Jm. Gobillard & Fils Brut Tradition
R$ 582,35
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